quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Sutiãs e Rolimãs ( 16/08/07)

Dizem que o primeiro sutiã a gente nunca esquece e isso foi até usado comercialmente. Um publicitário esperto aproveitou o momento certo e a frase virou uma espécie de jargão e até chavão para a adolescência.
Porém eu discordo.
Sinceramente não lembro nem a cor do meu primeiro sutiã e se voltasse no tempo, com toda boa vontade do mundo, continuaria sem lembrar.
Mas sei perfeitamente qual a cor do meu primeiro esmalte.
Vermelho!
Red, o mais red que eu poderia querer.
Para pintar o mundo com as cores que eu queria, na minha adolescência.
Minha adolescência, somente minha!
E lembro também do quanto eu gostava daquele carrinho de rolimã. Ele vivia rasgando a saia “midi” que deveria esvoaçar, uma hora mais tarde, em alguma reunião dançante.
Acho que eu nem usava sutiã.
Mas sei das artes que gostava de fazer com o meu esmalte vermelho nos meus cadernos e com o meu carrinho de rolimã, na minha saia midi.
De carrinhos de rolimã e de esmalte vermelho, eu lembro muito bem, mas não lembro de nenhum publicitário ter usado isto para definir uma fase tão especial da minha vida.
Minha adolescência. E esta certamente, eu nunca vou esquecer. Especial, como cada fase que vivo.
Como a de qualquer criança em fase intermediária para a idade adulta.
Os momentos marcantes, a gente jamais esquece. E até parodiando aquele publicitário esperto, é como o primeiro sutiã!
E se hoje, minha filha coloca o meu perfume francês, carésimo, para ir à escola, talvez seja ele o objeto de lembranças futuras dela ao olhar para sua fase adolescente.
E acredito até que o olhar dela possa recair sobre um lápis que delineia os olhos, ou o brilho de lábios que ela porta sobre a cômoda. E que para ela, como para mim, esta nunca será uma situação cômoda, pois que, pelo brilho que vejo em seu olhar, estará sempre buscando um esmalte vermelho para pintar as cores da vida.
Que lhe brilhem os olhos, ao lembrar dessa época tão dela, tão somente dela.
Como brilham os meus.
Ou talvez, no futuro, possa ela pensar entre as tantas de suas memórias, que tinha de fazer um trabalho de escola que incluísse um texto a respeito de objetos, ou de sentimentos, que marcam a adolescência e que a mãe dela, uma publicitária, inventou de pintar o sutiã, objeto que ela escolheu, com um esmalte vermelho e ainda o rasgou com o carinho de um rolimã que lhe afeta a memória da adolescência.
De qualquer forma, sejam quais forem as lembranças, acho mesmo que temos o dever de olhar os indivíduos, independente da idade que eles têm ou se usam ou não um sutiã.
Adolescência é muito particular, apesar de tantos adultos insistirem em jogá-la na vala da sentença “aborrecência”.
Deve ser mesmo muito aborrecido para os adolescentes ter de ouvir este tipo de chavão em uma etapa em que estão buscando interesses próprios e até escolhas de vida, e que incluem sim, processos similares entre eles, mas basicamente muito individuais, como sutiãs, esmaltes, carrinhos, perfumes...
E até carinho, com as cores próprias de suas personalidades.