terça-feira, 20 de março de 2007

Trancos e Barrancos (20/03/07)

Empurro a mim mesma
Vou buscando gás
Em mim

Enquanto a vida acontece lá fora
Acontece a vida, aqui
Em mim

Lá e aqui
A vida acontece

E com o que vejo lá,
Prefiro ver a vida aqui
Tão mais sensata que lá

Lá, nada me revela além da insanidade
De um mundo que não sabe para onde caminha

Aqui,
Há um caminho

Um mundo de sentimentos
Dos quais posso falar
Com propriedade

E a vida segue por aqui
Insensata
Porque tem a interferência de lá

Sensata seria eu, se ignorasse o lá
E vivesse somente aqui

Em minha total sanidade
Absoluta
Sanidade de sentimentos

Mas, como não vivo isolada
E nem posso me isolar da insanidade de lá

Vivo a sanidade
Aqui e lá
E vou levando a vida

Em minha sanidade de ver o mundo
Nem que seja
Aos trancos e barrancos

quarta-feira, 14 de março de 2007

Inocência (10/02/07)

Desliguei o radinho que sempre me acompanha, uma notícia tão inexplicável.
Desde aquele dia, todos se voltaram para crime tão bárbaro, e expõem detalhes.
Por isso desliguei meu rádio e me nego a tomar conhecimento de maiores pormenores.
Fico perplexa, incrédula, triste.
Um menino, de seis anos...
O fato já bastou para deixar meu radinho em off. Queria estar totalmente off e nunca saber de fatos assim.
Arrepiam-me os sentimentos.
Mas acabo conhecendo detalhes, porque a notícia está estampada em manchetes, revelando desdobramentos de crime tão atroz.
E eu deduzo, através das manchetes.
Fico chocada, com crime tão inexplicável, como outros tantos já ocorridos no passado e de igual destaque, e como passados, esquecidos, por uma maioria chocada.
Não tenho estômago pra acompanhar detalhes de barbáries.
Não tenho o sangue gélido dos bandidos que o cometeram. Tenho sangue, pulsante, quente.
Que congela ao tomar conhecimento de crime tão revoltante.
Bandidos?
É pouco para definir criaturas tão nojentas.
Como agora, só passo o olho em manchetes que me chegam, vi que as pessoas estão se reunindo, pedem paz, revisão do estatuto do adolescente.
Eram os pulhas, adolescentes? Pelas manchetes que me chegam concluo que sim.
A sociedade se une, cobra, realiza passeatas, pede mudanças.
A sociedade tem que exigir. Individual e coletivamente.
Não precisamos que revisem mais nada.
Muito já se revisou, questionou, discutiu.
Discussões intermináveis.
Enquanto elas acontecem, acontecem crimes bárbaros.
Chega de proteger monstros em abrigos de infantes.
Infantes são os inocentes nas mãos de coisas tão cruéis.
Imagino que nem coisa seja uma definição, já que coisa pode ser qualquer coisa, menos esses torpes nojentos.
Precisamos de ações firmes, severas, contra marginais de toda ordem.
Chega de ficar incrédulo, assistir e não agir.
Se cada um fizesse a sua parte, individual e coletivamente, muitas brutalidades não seriam cometidas.
Passeatas reivindicatórias até ajudam, se não morrerem no esquecimento. O que é bastante provável.
Tem de haver continuidade, mobilização.
Se cada um fizer a sua parte, preventiva e por conseqüência, poderemos mudar sim, leis absurdas, estatutos incoerentes com uma infância e juventude que mata em nome de um instinto que nem é animal. Animais não agem tão friamente, apenas seguem instintos.
Esses pulhas agem em nome de quê?
Da falta de severidade e de punição?
Vagabundos?
É pouco, muito pouco para definir monstros que deveriam ser extintos de qualquer convívio humano e animal.
Enquanto a sociedade chora, roga e se mobiliza pedindo paz e revisões,
E se discutem formas de rever, rever, rever
Nós chocados, vamos assistir, assistir, assistir
Crueldades inexplicáveis que nos fazem chorar e desligar o radinho.
Somos muito inocentes, nós que não podemos compreender o incompreensível.
Uma inocência perdida pela crueldade de “coisas” sem qualquer definição, monstros supostos inocentes, a serem banidos de qualquer condição que os privilegie em papéis infinitamente discutíveis.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Senhora – 21/01/07

Disputo com carros meu espaço
Ou porque as calçadas estão ocupadas por eles
Que me obrigam a transitar pelo meio fio, pelo meio da rua
Ou porque as calçadas estão intransitáveis.
Acho que a prefeitura da minha cidade está sendo muito transigente.

Tanto quanto eu e tantos outros que junto comigo, não cobram e somente se dirigem para o meio da rua, para o meio fio
Mães que guiam o carrinho de seus bebês
Idosos guiados por bengalas,
Idosos sem bengalas
Crianças...

E o mais arriscado nesse sobe e desce calçadas, além da condição não transitória, não são os carros que transitam pela rua
São aqueles que disputam comigo
O espaço das calçadas
As pessoas ao volante de seus carros

Pessoas que se movem como seus próprios carros
Máquinas humanas que engatam a marcha sem olhar para os lados, para trás.
E atropelam pedestres que tentam circular pelas calçadas, mas só encontram o meio fio, o meio da rua

Fiquei esperando , observando
Botei o pé mais a frente só pra testar
Ele não me viu
Lógico, parecia sua máquina

Voltei
Não vou me atropelar de propósito
E fiquei encarando
Até que ele me viu
E virou gente

Desculpe senhora!
E eu o fulminei
Ora! Desculpe senhora!

Não sou senhora
Nunca serei
Sou uma eterna criança
A transitar pelas ruas
Como senhora de mim