domingo, 11 de novembro de 2007

Depósito (10/11/07)

Tem um depósito na frente da minha casa
Podia ser o mar, as montanhas...
Mas nas paredes brancas do depósito existem anos depositados
Poeira e limo incrustados
Formam desenhos, imagens...
O mar está ali e as montanhas também
Casas, ruas, pessoas, bares, lugares...

As paredes brancas e sujas são as mais claras viagens que posso fazer hoje
Ao olhar pelas minhas janelas, o depósito.

Que sacada!
Essa sujeira no branco das paredes me leva a ver figuras
Como se eu olhasse nuvens e descobrisse cavalinhos no céu
E o sol brilhando em estrelas em dias de chuva.

As paredes do depósito se iluminam com o passar dos carros
Vejo cenas em cada coluna suja
O homem jogando cartas em um jogo de vida
O casal apaixonado em um beijo estremecido
E vejo até eu mesma, um vulto com uma porção de lixo e poeira atrás de mim
E um horizonte de oportunidades à minha frente
Iluminado pelos faróis dos carros a passar
Bem em frente ao depósito da minha casa.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Sutiãs e Rolimãs ( 16/08/07)

Dizem que o primeiro sutiã a gente nunca esquece e isso foi até usado comercialmente. Um publicitário esperto aproveitou o momento certo e a frase virou uma espécie de jargão e até chavão para a adolescência.
Porém eu discordo.
Sinceramente não lembro nem a cor do meu primeiro sutiã e se voltasse no tempo, com toda boa vontade do mundo, continuaria sem lembrar.
Mas sei perfeitamente qual a cor do meu primeiro esmalte.
Vermelho!
Red, o mais red que eu poderia querer.
Para pintar o mundo com as cores que eu queria, na minha adolescência.
Minha adolescência, somente minha!
E lembro também do quanto eu gostava daquele carrinho de rolimã. Ele vivia rasgando a saia “midi” que deveria esvoaçar, uma hora mais tarde, em alguma reunião dançante.
Acho que eu nem usava sutiã.
Mas sei das artes que gostava de fazer com o meu esmalte vermelho nos meus cadernos e com o meu carrinho de rolimã, na minha saia midi.
De carrinhos de rolimã e de esmalte vermelho, eu lembro muito bem, mas não lembro de nenhum publicitário ter usado isto para definir uma fase tão especial da minha vida.
Minha adolescência. E esta certamente, eu nunca vou esquecer. Especial, como cada fase que vivo.
Como a de qualquer criança em fase intermediária para a idade adulta.
Os momentos marcantes, a gente jamais esquece. E até parodiando aquele publicitário esperto, é como o primeiro sutiã!
E se hoje, minha filha coloca o meu perfume francês, carésimo, para ir à escola, talvez seja ele o objeto de lembranças futuras dela ao olhar para sua fase adolescente.
E acredito até que o olhar dela possa recair sobre um lápis que delineia os olhos, ou o brilho de lábios que ela porta sobre a cômoda. E que para ela, como para mim, esta nunca será uma situação cômoda, pois que, pelo brilho que vejo em seu olhar, estará sempre buscando um esmalte vermelho para pintar as cores da vida.
Que lhe brilhem os olhos, ao lembrar dessa época tão dela, tão somente dela.
Como brilham os meus.
Ou talvez, no futuro, possa ela pensar entre as tantas de suas memórias, que tinha de fazer um trabalho de escola que incluísse um texto a respeito de objetos, ou de sentimentos, que marcam a adolescência e que a mãe dela, uma publicitária, inventou de pintar o sutiã, objeto que ela escolheu, com um esmalte vermelho e ainda o rasgou com o carinho de um rolimã que lhe afeta a memória da adolescência.
De qualquer forma, sejam quais forem as lembranças, acho mesmo que temos o dever de olhar os indivíduos, independente da idade que eles têm ou se usam ou não um sutiã.
Adolescência é muito particular, apesar de tantos adultos insistirem em jogá-la na vala da sentença “aborrecência”.
Deve ser mesmo muito aborrecido para os adolescentes ter de ouvir este tipo de chavão em uma etapa em que estão buscando interesses próprios e até escolhas de vida, e que incluem sim, processos similares entre eles, mas basicamente muito individuais, como sutiãs, esmaltes, carrinhos, perfumes...
E até carinho, com as cores próprias de suas personalidades.

domingo, 29 de julho de 2007

Despedida 28/07/07

Silêncio gritante invade meus ouvidos
Sinto, é hora da despedida...

Nunca vou esquecer esses dias cinzentos...
É o inverno mais frio que já passei desde que cheguei aqui, há quase dez anos.
Eu que estou indo embora,
Vou com frio

Depois de quase dez anos
Tanto faz, tanto faria, tanto fez

Tamanha frieza

Aquela praça continua ali, abandonada aos mendigos, pombos, cães,
Solitários em dias cinzentos.
Tudo continua absolutamente em silêncio
Gritante silêncio

Dias cinzentos seguirão por aqui
E eu seguirei meu caminho
Com uma brecha de sol em dias cinzentos

Mas aqui, de todos os lados, por todos os lados,
Impera o silêncio

Esperanças solitárias
Silenciam
Em um silêncio ensurdecedor


Eco em meus ouvidos

Surdo silêncio que insiste em não me ouvir

Gelado vento sul,
Veste o povo daqui
Metade frio, metade frio, também
Como pode esquentar pela metade?


Nunca soube, porque quando tá frio, eles vestem bermuda e casacão
Acho que essa é uma despedida, por inteiro, àqueles que eu só soube entender pela metade,

Por isso, o silêncio grita em meus ouvidos
Por inteiro

Para que eu não olhe metades
E aprenda a ouvir o grito dessa cidade

Nem que seja em metades

Vou colocar uma calça
Tá muito frio aqui,
Parece sempre fez frio, só eu não percebi

Vai completar 10 anos

E a metade,
Continuará metade
Por inteiro
Em uma despedida que sempre vou compreender

Pela metade.


quarta-feira, 16 de maio de 2007

Calada


Abandonou seu estado habitual e silencioso.
Pressinto.
Sabia que isso aconteceria,
Tão tarde quanto eu pressentia, tão cedo quanto eu não queria.
Partiu, calado

Calada,
Busco novas noticias, que me chegam antecipadas pela velha estação.

Na mesma e velha estação.
Embarco

Em noticias falidas de uma estação passada,

A apagar o frio
Aplacar o fogo
Irrigar a alma

A florir o solo seco
Teu suco
Em mim

Embarco
Na mesma e velha estação passada

Vago
À espera do novo embarque
Onde eu possa futilmente
Vagar

Calada

terça-feira, 1 de maio de 2007

Memória ( 01/05/07)


Poderia simplesmente apagar tudo
Com o tempo
Deixar o tempo passar

Mas sou contra o tempo
Tempo passa voando
Tempo enruga,
Quer me passar pra trás

Ahaha! Tempo...
Dá um tempo
Fica lá pra trás.

Cai fora
Tempo que avança
Querendo me apagar

Tempo que passa voando
Passa me levando
Leve...
Voando...

Mesmo que leve tempo
Não tem tempo que leve
Meu sentimento

Leva o tempo, meu sentimento,
Tempo traz,
Tempos de atrás

Memória
Caixinha de sentimentos
Que nem o tempo desfaz

domingo, 29 de abril de 2007

Esgoto ( 29/04/07)


Esgotam-se idéias,
Espero não se esgotem ideais

Mas esgotam-se no esgoto,

Idéias
Como se esgotam

Pensamentos

Esgoto de pensamentos

Esgoto textos
Esgotada
Jogo-me no esgoto

Textos de esgoto
Esgotam-me
Esgoto das minhas idéias

Esgotada estou

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Indiferença ( 27-04-07)


Me recolho em uma posição incomoda e confortável
Confortavelmente me encolho

E não vejo saída diferente para situações tão iguais
Que se repetem de forma diferente
Se repetem iguais

Anos, anos, anos
Avançam
Repetidamente
E me levam embora

E levam embora a vontade de fazer diferente
Repetidamente
Diferente

Levam-me
Trazem o igual

Igual não faz diferença
Indiferença
Em dias que se repetem

Repetidamente
Com a descrença
E a crença
De que nada será diferente

Mísera repetição
Petição da minha indiferença

sábado, 14 de abril de 2007

Mais de Mil ( 15/12/06)


Tenho um compartimento especial para arquivar imagens.
Posso descreve-las, através de palavras, como fotografias.
Eu fotografei aquela reunião de mendigos.
Vi pessoas, em ato de troca, de solidariedade.
Cruzei com eles, em papo animado, nem notaram minha presença, mas notei o que faziam.
Repartiam a comida, serviam uns aos outros.
Riam e brincavam como se fosse a hora do recreio, naquele banco de praça, sua casa.
Mendigos em reunião.
Retrato que levo comigo.
Ao atravessar a ponte, olho para o mar e lá está ele, varrendo a coluna da ponte.
Dia seguinte, só por curiosidade, fui conferir novamente. Ele não estava lá, mas havia uma presença imperiosa.
Uma santinha, iluminada, a proteger sua casa. A coluna da ponte.
Todo o dia, quando cruzo a ponte, desde então, espicho o olhar, para dar fé, do que estará acontecendo por lá.
Para mim, como para ele, aquilo não é uma coluna a sustentar os carros que por ali transitam.
É o seu lar.
Sigo eu para o meu lar, porém ao passar por aquele terreno, descubro que tenho mais uma imagem para fotografar.
Ali, o mato cresce e há todo o tipo de utensílios, inclusive jornais.
Dou de cara com ele, outro deles, sentado em um sofá, lendo o seu jornal.
Ele me olha, levanta e pega a mochila. Sai pra trabalhar.
Aonde?? Talvez vender balinhas ou pirulitos em algum terminal da vida.
Mas ele sai dali acompanhado, está informado.
Vou embora pra minha casa, com as informações do dia.
Tenho mais de mil palavras para fotografar as muitas imagens que vi.

Terminais (15/12/06)


Todo o dia fazia o mesmo trajeto, antes de mudar de rumo.
Mas neste momento rumo às minhas lembranças por aqueles terminais.
O do centro é repleto. Ali as pessoas cruzam em suas manobras de vida. Pacientes em terminais, em filas intermináveis, que se repetem dia a dia, hora a hora, todo o dia.
E a fila acompanha o engate das marchas, pra frente, pra trás, tentando garantir um lugar dentro daquele carrão.
Mas quem tem lugar garantido é ela.
Seu tempo é cronometrado. Passo apressado, ela chega e me enfia um pirulito na mão. Que coisa irritante esse encontro de hora marcada.
Segundos depois ela volta e me arranca o pirulito da mão.
Tão ágil quanto chegou, vai embora, se esgueirando em manobras dentro daquele carrão.
Pensei em rever meus horários, mas de que adianta isso, se vou ter que cruzar com outros tão menos delicados que ela?
Melhor manter meu horário e engolir aquele pirulito, goela abaixo.
Próximo terminal, vou me encontrar com o garoto do violão, mas ele até já aprendeu a tocar. Cantar?? Só a menina que ele conheceu ali, naquele terminal, e eu presenciei a cena.
Trindade, dois de abril...
Melhor, omitir os detalhes, até porque nesse dia também encontrei o garoto das tranças, postado, ali, no centro do banco, com tantos idosos em pé ao seu lado...
Acho que eles não queriam sentar. Era um risco, estariam sujeitos a levar uma surra, tantas eram as chicoteadas que aquele garoto dava ao jogar suas tranças. Até que chegou a sua Rapunzel. E ele parece, ficou mais tranqüilo, começou a tocar guitarra, em cordas imaginárias e deixou as tranças de lado.
Ao meu lado, chegou repentinamente, aquele turista, falando em inglês a pedir informação. Que coragem, logo pra mim. My english no good. My english is very, very bad.
Mas ele bem que entendeu a explicação que eu dei, afinal só apontei para o ônibus que ele deveria embarcar. É porque até entendo um pouquinho dessa língua estranha. O problema mesmo é falar.
Embarco em outra viagem, pra bem longe da praia daquele turista, rumo ao próximo terminal, meu destino.
E por falar em destino, bem que ouvi durante o trajeto, aqueles dois em bate papo animado e justo em francês. Credo, que sina. É pra lá que me transporto, pelo menos em sonhos.
Até que ele me acorda com uma triste história. Nossa, acho que vou chorar.
Minha sorte é que esse encontro não tem hora marcada, porque eles escolhem qualquer ônibus, qualquer terminal, e qualquer tolo que estiver disposto a engolir suas tristes histórias inventadas. Prefiro um pirulito, goela abaixo.
Fico a me indagar com que destreza eles todos circulam por aqueles terminais, por aqueles ônibus lotados.
Alguns, além de suportarem o peso de seus corpos, ainda carregam sacolas lotadas. Mas até que a causa é nobre, visa a auxiliar pessoas em suas dependências. Essas canetas, faço questão de comprar e escrever essa história. Uma vez por semana falo com ele, e compro as suas canetas.
Dessa forma sigo viagem a rabiscar rumo ao próximo terminal.
E ao descer no centro, imagino que ela também necessite de algum tipo de auxílio em sua dependência. Talvez ela dependa de mim, e de tantos outros que circulam pacientes por ali em suas manobras de vida.
Olho para ela e compro aquele pirulito. Ela me olha e sorri.
Que doce! Vou relaxar.
Ta na hora da minha volta pra casa.

domingo, 1 de abril de 2007

Com Textos ( 01/04/07)

Com textos, busco o contexto
Com textos, tenho sentido

Com textos, expresso o que não tem sentido
Com textos, expresso o que tenho sentido

Com textos, busco sentido
Sem textos, sou sem sentido

Sou com textos
No contexto

terça-feira, 20 de março de 2007

Trancos e Barrancos (20/03/07)

Empurro a mim mesma
Vou buscando gás
Em mim

Enquanto a vida acontece lá fora
Acontece a vida, aqui
Em mim

Lá e aqui
A vida acontece

E com o que vejo lá,
Prefiro ver a vida aqui
Tão mais sensata que lá

Lá, nada me revela além da insanidade
De um mundo que não sabe para onde caminha

Aqui,
Há um caminho

Um mundo de sentimentos
Dos quais posso falar
Com propriedade

E a vida segue por aqui
Insensata
Porque tem a interferência de lá

Sensata seria eu, se ignorasse o lá
E vivesse somente aqui

Em minha total sanidade
Absoluta
Sanidade de sentimentos

Mas, como não vivo isolada
E nem posso me isolar da insanidade de lá

Vivo a sanidade
Aqui e lá
E vou levando a vida

Em minha sanidade de ver o mundo
Nem que seja
Aos trancos e barrancos

quarta-feira, 14 de março de 2007

Inocência (10/02/07)

Desliguei o radinho que sempre me acompanha, uma notícia tão inexplicável.
Desde aquele dia, todos se voltaram para crime tão bárbaro, e expõem detalhes.
Por isso desliguei meu rádio e me nego a tomar conhecimento de maiores pormenores.
Fico perplexa, incrédula, triste.
Um menino, de seis anos...
O fato já bastou para deixar meu radinho em off. Queria estar totalmente off e nunca saber de fatos assim.
Arrepiam-me os sentimentos.
Mas acabo conhecendo detalhes, porque a notícia está estampada em manchetes, revelando desdobramentos de crime tão atroz.
E eu deduzo, através das manchetes.
Fico chocada, com crime tão inexplicável, como outros tantos já ocorridos no passado e de igual destaque, e como passados, esquecidos, por uma maioria chocada.
Não tenho estômago pra acompanhar detalhes de barbáries.
Não tenho o sangue gélido dos bandidos que o cometeram. Tenho sangue, pulsante, quente.
Que congela ao tomar conhecimento de crime tão revoltante.
Bandidos?
É pouco para definir criaturas tão nojentas.
Como agora, só passo o olho em manchetes que me chegam, vi que as pessoas estão se reunindo, pedem paz, revisão do estatuto do adolescente.
Eram os pulhas, adolescentes? Pelas manchetes que me chegam concluo que sim.
A sociedade se une, cobra, realiza passeatas, pede mudanças.
A sociedade tem que exigir. Individual e coletivamente.
Não precisamos que revisem mais nada.
Muito já se revisou, questionou, discutiu.
Discussões intermináveis.
Enquanto elas acontecem, acontecem crimes bárbaros.
Chega de proteger monstros em abrigos de infantes.
Infantes são os inocentes nas mãos de coisas tão cruéis.
Imagino que nem coisa seja uma definição, já que coisa pode ser qualquer coisa, menos esses torpes nojentos.
Precisamos de ações firmes, severas, contra marginais de toda ordem.
Chega de ficar incrédulo, assistir e não agir.
Se cada um fizesse a sua parte, individual e coletivamente, muitas brutalidades não seriam cometidas.
Passeatas reivindicatórias até ajudam, se não morrerem no esquecimento. O que é bastante provável.
Tem de haver continuidade, mobilização.
Se cada um fizer a sua parte, preventiva e por conseqüência, poderemos mudar sim, leis absurdas, estatutos incoerentes com uma infância e juventude que mata em nome de um instinto que nem é animal. Animais não agem tão friamente, apenas seguem instintos.
Esses pulhas agem em nome de quê?
Da falta de severidade e de punição?
Vagabundos?
É pouco, muito pouco para definir monstros que deveriam ser extintos de qualquer convívio humano e animal.
Enquanto a sociedade chora, roga e se mobiliza pedindo paz e revisões,
E se discutem formas de rever, rever, rever
Nós chocados, vamos assistir, assistir, assistir
Crueldades inexplicáveis que nos fazem chorar e desligar o radinho.
Somos muito inocentes, nós que não podemos compreender o incompreensível.
Uma inocência perdida pela crueldade de “coisas” sem qualquer definição, monstros supostos inocentes, a serem banidos de qualquer condição que os privilegie em papéis infinitamente discutíveis.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Senhora – 21/01/07

Disputo com carros meu espaço
Ou porque as calçadas estão ocupadas por eles
Que me obrigam a transitar pelo meio fio, pelo meio da rua
Ou porque as calçadas estão intransitáveis.
Acho que a prefeitura da minha cidade está sendo muito transigente.

Tanto quanto eu e tantos outros que junto comigo, não cobram e somente se dirigem para o meio da rua, para o meio fio
Mães que guiam o carrinho de seus bebês
Idosos guiados por bengalas,
Idosos sem bengalas
Crianças...

E o mais arriscado nesse sobe e desce calçadas, além da condição não transitória, não são os carros que transitam pela rua
São aqueles que disputam comigo
O espaço das calçadas
As pessoas ao volante de seus carros

Pessoas que se movem como seus próprios carros
Máquinas humanas que engatam a marcha sem olhar para os lados, para trás.
E atropelam pedestres que tentam circular pelas calçadas, mas só encontram o meio fio, o meio da rua

Fiquei esperando , observando
Botei o pé mais a frente só pra testar
Ele não me viu
Lógico, parecia sua máquina

Voltei
Não vou me atropelar de propósito
E fiquei encarando
Até que ele me viu
E virou gente

Desculpe senhora!
E eu o fulminei
Ora! Desculpe senhora!

Não sou senhora
Nunca serei
Sou uma eterna criança
A transitar pelas ruas
Como senhora de mim