sábado, 14 de abril de 2007

Terminais (15/12/06)


Todo o dia fazia o mesmo trajeto, antes de mudar de rumo.
Mas neste momento rumo às minhas lembranças por aqueles terminais.
O do centro é repleto. Ali as pessoas cruzam em suas manobras de vida. Pacientes em terminais, em filas intermináveis, que se repetem dia a dia, hora a hora, todo o dia.
E a fila acompanha o engate das marchas, pra frente, pra trás, tentando garantir um lugar dentro daquele carrão.
Mas quem tem lugar garantido é ela.
Seu tempo é cronometrado. Passo apressado, ela chega e me enfia um pirulito na mão. Que coisa irritante esse encontro de hora marcada.
Segundos depois ela volta e me arranca o pirulito da mão.
Tão ágil quanto chegou, vai embora, se esgueirando em manobras dentro daquele carrão.
Pensei em rever meus horários, mas de que adianta isso, se vou ter que cruzar com outros tão menos delicados que ela?
Melhor manter meu horário e engolir aquele pirulito, goela abaixo.
Próximo terminal, vou me encontrar com o garoto do violão, mas ele até já aprendeu a tocar. Cantar?? Só a menina que ele conheceu ali, naquele terminal, e eu presenciei a cena.
Trindade, dois de abril...
Melhor, omitir os detalhes, até porque nesse dia também encontrei o garoto das tranças, postado, ali, no centro do banco, com tantos idosos em pé ao seu lado...
Acho que eles não queriam sentar. Era um risco, estariam sujeitos a levar uma surra, tantas eram as chicoteadas que aquele garoto dava ao jogar suas tranças. Até que chegou a sua Rapunzel. E ele parece, ficou mais tranqüilo, começou a tocar guitarra, em cordas imaginárias e deixou as tranças de lado.
Ao meu lado, chegou repentinamente, aquele turista, falando em inglês a pedir informação. Que coragem, logo pra mim. My english no good. My english is very, very bad.
Mas ele bem que entendeu a explicação que eu dei, afinal só apontei para o ônibus que ele deveria embarcar. É porque até entendo um pouquinho dessa língua estranha. O problema mesmo é falar.
Embarco em outra viagem, pra bem longe da praia daquele turista, rumo ao próximo terminal, meu destino.
E por falar em destino, bem que ouvi durante o trajeto, aqueles dois em bate papo animado e justo em francês. Credo, que sina. É pra lá que me transporto, pelo menos em sonhos.
Até que ele me acorda com uma triste história. Nossa, acho que vou chorar.
Minha sorte é que esse encontro não tem hora marcada, porque eles escolhem qualquer ônibus, qualquer terminal, e qualquer tolo que estiver disposto a engolir suas tristes histórias inventadas. Prefiro um pirulito, goela abaixo.
Fico a me indagar com que destreza eles todos circulam por aqueles terminais, por aqueles ônibus lotados.
Alguns, além de suportarem o peso de seus corpos, ainda carregam sacolas lotadas. Mas até que a causa é nobre, visa a auxiliar pessoas em suas dependências. Essas canetas, faço questão de comprar e escrever essa história. Uma vez por semana falo com ele, e compro as suas canetas.
Dessa forma sigo viagem a rabiscar rumo ao próximo terminal.
E ao descer no centro, imagino que ela também necessite de algum tipo de auxílio em sua dependência. Talvez ela dependa de mim, e de tantos outros que circulam pacientes por ali em suas manobras de vida.
Olho para ela e compro aquele pirulito. Ela me olha e sorri.
Que doce! Vou relaxar.
Ta na hora da minha volta pra casa.

Um comentário:

Lu disse...

sensível,tocante,simples e direto como o cotidiano nosso de cada dia