Desliguei o radinho que sempre me acompanha, uma notícia tão inexplicável.
Desde aquele dia, todos se voltaram para crime tão bárbaro, e expõem detalhes.
Por isso desliguei meu rádio e me nego a tomar conhecimento de maiores pormenores.
Fico perplexa, incrédula, triste.
Um menino, de seis anos...
O fato já bastou para deixar meu radinho em off. Queria estar totalmente off e nunca saber de fatos assim.
Arrepiam-me os sentimentos.
Mas acabo conhecendo detalhes, porque a notícia está estampada em manchetes, revelando desdobramentos de crime tão atroz.
E eu deduzo, através das manchetes.
Fico chocada, com crime tão inexplicável, como outros tantos já ocorridos no passado e de igual destaque, e como passados, esquecidos, por uma maioria chocada.
Não tenho estômago pra acompanhar detalhes de barbáries.
Não tenho o sangue gélido dos bandidos que o cometeram. Tenho sangue, pulsante, quente.
Que congela ao tomar conhecimento de crime tão revoltante.
Bandidos?
É pouco para definir criaturas tão nojentas.
Como agora, só passo o olho em manchetes que me chegam, vi que as pessoas estão se reunindo, pedem paz, revisão do estatuto do adolescente.
Eram os pulhas, adolescentes? Pelas manchetes que me chegam concluo que sim.
A sociedade se une, cobra, realiza passeatas, pede mudanças.
A sociedade tem que exigir. Individual e coletivamente.
Não precisamos que revisem mais nada.
Muito já se revisou, questionou, discutiu.
Discussões intermináveis.
Enquanto elas acontecem, acontecem crimes bárbaros.
Chega de proteger monstros em abrigos de infantes.
Infantes são os inocentes nas mãos de coisas tão cruéis.
Imagino que nem coisa seja uma definição, já que coisa pode ser qualquer coisa, menos esses torpes nojentos.
Precisamos de ações firmes, severas, contra marginais de toda ordem.
Chega de ficar incrédulo, assistir e não agir.
Se cada um fizesse a sua parte, individual e coletivamente, muitas brutalidades não seriam cometidas.
Passeatas reivindicatórias até ajudam, se não morrerem no esquecimento. O que é bastante provável.
Tem de haver continuidade, mobilização.
Se cada um fizer a sua parte, preventiva e por conseqüência, poderemos mudar sim, leis absurdas, estatutos incoerentes com uma infância e juventude que mata em nome de um instinto que nem é animal. Animais não agem tão friamente, apenas seguem instintos.
Esses pulhas agem em nome de quê?
Da falta de severidade e de punição?
Vagabundos?
É pouco, muito pouco para definir monstros que deveriam ser extintos de qualquer convívio humano e animal.
Enquanto a sociedade chora, roga e se mobiliza pedindo paz e revisões,
E se discutem formas de rever, rever, rever
Nós chocados, vamos assistir, assistir, assistir
Crueldades inexplicáveis que nos fazem chorar e desligar o radinho.
Somos muito inocentes, nós que não podemos compreender o incompreensível.
Uma inocência perdida pela crueldade de “coisas” sem qualquer definição, monstros supostos inocentes, a serem banidos de qualquer condição que os privilegie em papéis infinitamente discutíveis.

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